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Medos infantis na contemporaneidade: contribuições do Procedimento de Desenhos-Estórias com Tema

GOMES, G.F. Medos infantis na contemporaneidade: contribuições do Procedimento de Desenhos-Estórias com Tema. 224 p. (Dissertação de Mestrado). Programa de Pós Graduação em Psicologia, Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (USP), Ribeirão Preto (SP), 2022.

Disponível em: https://doi.org/10.11606/D.59.2022.tde-08072022-075905

Resumo: O medo é uma emoção fundamental dos seres humanos, que se altera ao longo do seu desenvolvimento e é influenciado em sua natureza e intensidade não apenas por aspectos biológicos, mas também pelo momento histórico e pelas características sociais e culturais do contexto em que o indivíduo vive. O objetivo do presente trabalho foi realizar uma investigação sobre os medos infantis atuais, incluindo os objetos a que eles são atribuídos, a sua natureza, as angústias e as defesas empregadas contra elas, a percepção do meio exterior pela criança e as suas condições de elaboração dessa emoção, além de observar se há variações nos tipos de medos relatados de acordo com o sexo, o nível socioeconômico e nos períodos anterior e durante a pandemia do SARS-CoV-2. O instrumento utilizado para a coleta dos dados foi o Procedimento de Desenhos-Estórias com Tema. A fundamentação espistemo-metodológica foi a Psicanálise, e a teoria de base consistiu principalmente na perspectiva winnicottiana do amadurecimento emocional. A amostra foi constituída por 40 crianças entre 8 e 11 anos de idade, 20 do sexo masculino e 20 do sexo feminino, 14 delas procedentes de escolas públicas e 26 de escolas particulares, com metade dos dados colhidos no período anterior à pandemia do Coronavírus e a outra metade durante, respeitando o distanciamento social através da aplicação online do D-E (T). A plataforma digital utilizada foi o WhatsApp. Os resultados revelaram que as crianças apresentaram uma variedade de medos, com uma predileção para a localização deles em objetos da realidade exterior em detrimento das criações imaginárias da fantasia infantil. Essa tendência foi observada especialmente no grupo das meninas, no dos alunos de escola particular e durante o período da pandemia. Mesmo assim, não houve coibição da fantasia e da imaginação, que ainda se mantiveram como recursos poderosos da criança para manejar essa emoção. A maioria das angústias referidas pelas crianças foi de tipo persecutório, mas mesmo assim as defesas recrutadas foram principalmente do registro neurótico, sobretudo durante a pandemia, demonstrando que a ansiedade de alguma maneira permaneceu circunscrita, sem reclamar uma regressão do ego em mais alta escala. A percepção do meio foi marcadamente negativa, visto que contemplava também o objeto temido. No entanto, durante pandemia essa propensão esteve um pouco mais contrabalançada pela atribuição de características positivas ao ambiente, revelando que, em situações de crise, as crianças também respondem com um aumento da confiança no seu entorno. Embora essa tendência a uma maior atenção e apego à realidade exterior faça parte dos processos psicológicos que se desenrolam no período de latência (que corresponde globalmente a faixa etária dos participantes desta pesquisa), ela pareceu vinculada também às características da sociedade contemporânea, cujo fluxo contínuo de transformações demanda uma atenção ao mundo exterior sem trégua também para a criança. Os resultados deste estudo são passíveis de auxiliar os psicólogos na construção de intervenções que busquem não eliminar o medo, já que ele é um fator de proteção do ser humano, mas integrá-lo ao Self da criança como um elemento propulsor de um desenvolvimento emocional saudável e pleno de sentido.

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